Recordava o colo do meu pai. Não tenho muitas memórias de estar no colo ou nos braços dele, mas recordava procurar sempre o seu carinho. Porém, haveria sempre uma certa estranheza.
Era como se o meu pai fosse incapaz de amar, tal como eu precisava. Mas eu ali ficava na mesma. Talvez se eu esperasse pacientemente ele viria a dar-me o amor e a aprovação que eu tanto ansiava. Eu esperava e esperava. Faria tudo para que fosse vista por ele.
Porém, os meus esforços seriam desvalorizados vezes sem conta. O meu pedido silencioso por amor ficaria por ouvir. Quando me diziam que as meninas eram muito mais ligadas aos pais, eu sentia-me culpada por não sentir essa ligação e proximidade. Sentia-me cada vez mais afastada. Ele continuava incapaz de manifestar afetos ou expressar carinho de uma forma natural. Eu paradoxalmente continuava a fazer tudo para ganhar a atenção e a aprovação dele. Tão grande era a minha necessidade de sentir amor daquele homem que eu tentaria sempre, ignorando muitas vezes os meus sentimentos ou sentir-me até mesmo humilhada e invisível em alguns momentos.
Julgo foi este o início de um padrão de comportamento para com os homens. A necessidade de ser amada e de agradar a todo custo. O meu pai seria o meu primeiro desgosto amoroso. Mesmo assim, eu continuava à espera daquele amor que desejava sentir por parte dele. Que ele dissesse e fizesse as coisas certas, tal como eu imaginava. Para que isso acontecesse, eu estava convicta que tinha de salvá-lo.
Contudo, eu percebera só muito mais tarde que não era a minha função salvar o meu pai. Que ele não precisava de ser salvo e que ele não sabia amar de outra forma, pois nunca lhe fora “ensinado”. O afeto tornava-o vulnerável e exposto. Coisas que ele receava e evitava a todo o custo. Ele tinha sido ensinado a sobreviver. Sobreviver à pobreza, sobreviver à morte e sobreviver à ausência de amor.
Seria injusto eu exigir dele algo que ele desconhecia. Que amor é esse em que exigimos amor? No amor, não pode haver exigência. No amor, não pode haver expectativa.
As expectativas impedem-nos. São uma lista que construímos e que nos diz exatamente como as coisas deveriam ser. Fazem-nos sentir seguros, mas também nos impedem de estar totalmente presentes e de viver quem somos. O desafio de deixar as expectativas é igualmente uma oportunidade para o empoderamento, motivado não pela vergonha ou punição, mas sim pela esperança. Esperança de uma abertura plena à vida.
As expectativas manifestam-se como uma lista de verificação na nossa cabeça, competindo constantemente pela nossa atenção. Afastamo-nos do momento, da pessoa e da relação para verificar na lista se tudo está a ser cumprido meticulosamente para depois voltarmos à realidade e exigir que o outro faça à nossa maneira.
Podemos continuar a procurar a felicidade fora de nós em todas as coisas e todas as pessoas, mas a verdade da nossa existência é que não há nada do lado de fora que nos possa preencher verdadeiramente.

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